Política de juventude não pode ser só discurso
Artigo denuncia o abandono das políticas de juventude e cobra ações concretas para garantir direitos e oportunidades aos jovens.
Falar de juventude no Brasil virou algo comum nos discursos, mas raro na prática. Todo mundo diz que o jovem é o futuro, mas quase ninguém trata a juventude como prioridade no presente.
No Ceará e em muitos estados do país, as políticas públicas de juventude estão sendo deixadas de lado, os conselhos estão enfraquecidos e os planos que deveriam orientar essas ações estão abandonados.
Isso não é detalhe. É um problema sério.
Nos últimos anos, o Brasil criou leis importantes para a juventude, como o Estatuto da Juventude e a Política Nacional de Juventude. Essas leis reconhecem o jovem como cidadão e garantem direitos. Mas, quando falta compromisso político, tudo isso vira letra morta. A política de juventude existe no papel, mas não chega onde deveria: na vida real da juventude.
Conselhos existem, mas quase não funcionam
Os conselhos de juventude foram criados para ouvir os jovens e ajudar a construir políticas públicas. Eles deveriam ser espaços de diálogo, participação e decisão. Porém, hoje, a maioria desses conselhos está sem estrutura, sem orçamento e sem poder real.
É importante dizer que existem raras exceções. O Conselho Municipal da Juventude de Fortaleza foi, por muitos anos, um exemplo positivo. Até 2024, era o único conselho municipal com caráter deliberativo e com atuação regular no país, participando ativamente da construção de políticas públicas e do debate sobre o Plano Municipal de Juventude.
No entanto, após esse período, o conselho passou por uma deterioração gradativa. A falta de organização da mesa diretora, somada ao sucateamento da estrutura do conselho, levou à paralisação dos trabalhos. Em 2026, Fortaleza entrou com o Plano Municipal de Juventude travado, sem avanços, sem coordenação e sem a participação ativa que antes existia.
Esse cenário mostra que nem mesmo experiências bem-sucedidas resistem quando não há compromisso político contínuo. O enfraquecimento dos conselhos não é acaso, é resultado de escolhas. Um conselho forte cobra, incomoda e propõe. Um conselho enfraquecido apenas existe para constar.
Planos de juventude esquecidos
Outro problema grave é o abandono dos planos municipais e estaduais de juventude. Esses planos deveriam organizar as ações do poder público, com metas claras, prazos e recursos garantidos. Mas muitos estão desatualizados, engavetados ou simplesmente ignorados.
Sem plano, não existe política pública de verdade. O que sobra são ações soltas, sem continuidade, que não mudam a realidade do jovem. Enquanto isso, a juventude enfrenta desemprego, falta de oportunidades, violência, dificuldades na escola e problemas de saúde mental.
Precisamos mudar esse cenário
Não dá mais para tratar política de juventude como algo secundário. É preciso construir políticas públicas que realmente façam diferença na vida dos jovens. Isso passa por fortalecer os conselhos de juventude, garantir orçamento, organizar a gestão, atualizar os planos e ouvir quem vive a realidade das periferias, do campo, das escolas públicas e do mundo do trabalho.
A juventude não quer favor. Quer direito. Quer oportunidade de estudar, trabalhar, viver com dignidade e participar das decisões que afetam sua própria vida.
Investir em juventude não é gasto. É cuidar do presente e do futuro do Ceará. Se o Estado continuar ignorando a juventude, continuará produzindo desigualdade, exclusão e descrença na política.
Política de juventude não pode ser só discurso. Precisa ser ação, compromisso e prioridade.
Por Dias Filho – Coluna A Voz Jovem do Ceará