Colunista Dias Filho

Política de juventude não pode ser só discurso

Artigo denuncia o abandono das políticas de juventude e cobra ações concretas para garantir direitos e oportunidades aos jovens.

Publicado em 04/02/2026 11:24
Por Redação Escotilha
Em Opinião
Compartilhe:

Falar de juventude no Brasil virou algo comum nos discursos, mas raro na prática. Todo mundo diz que o jovem é o futuro, mas quase ninguém trata a juventude como prioridade no presente.

No Ceará e em muitos estados do país, as políticas públicas de juventude estão sendo deixadas de lado, os conselhos estão enfraquecidos e os planos que deveriam orientar essas ações estão abandonados.

Isso não é detalhe. É um problema sério.

Nos últimos anos, o Brasil criou leis importantes para a juventude, como o Estatuto da Juventude e a Política Nacional de Juventude. Essas leis reconhecem o jovem como cidadão e garantem direitos. Mas, quando falta compromisso político, tudo isso vira letra morta. A política de juventude existe no papel, mas não chega onde deveria: na vida real da juventude.

Conselhos existem, mas quase não funcionam

Os conselhos de juventude foram criados para ouvir os jovens e ajudar a construir políticas públicas. Eles deveriam ser espaços de diálogo, participação e decisão. Porém, hoje, a maioria desses conselhos está sem estrutura, sem orçamento e sem poder real.

É importante dizer que existem raras exceções. O Conselho Municipal da Juventude de Fortaleza foi, por muitos anos, um exemplo positivo. Até 2024, era o único conselho municipal com caráter deliberativo e com atuação regular no país, participando ativamente da construção de políticas públicas e do debate sobre o Plano Municipal de Juventude.

No entanto, após esse período, o conselho passou por uma deterioração gradativa. A falta de organização da mesa diretora, somada ao sucateamento da estrutura do conselho, levou à paralisação dos trabalhos. Em 2026, Fortaleza entrou com o Plano Municipal de Juventude travado, sem avanços, sem coordenação e sem a participação ativa que antes existia.

Esse cenário mostra que nem mesmo experiências bem-sucedidas resistem quando não há compromisso político contínuo. O enfraquecimento dos conselhos não é acaso, é resultado de escolhas. Um conselho forte cobra, incomoda e propõe. Um conselho enfraquecido apenas existe para constar.

Planos de juventude esquecidos

Outro problema grave é o abandono dos planos municipais e estaduais de juventude. Esses planos deveriam organizar as ações do poder público, com metas claras, prazos e recursos garantidos. Mas muitos estão desatualizados, engavetados ou simplesmente ignorados.

Sem plano, não existe política pública de verdade. O que sobra são ações soltas, sem continuidade, que não mudam a realidade do jovem. Enquanto isso, a juventude enfrenta desemprego, falta de oportunidades, violência, dificuldades na escola e problemas de saúde mental.

Precisamos mudar esse cenário

Não dá mais para tratar política de juventude como algo secundário. É preciso construir políticas públicas que realmente façam diferença na vida dos jovens. Isso passa por fortalecer os conselhos de juventude, garantir orçamento, organizar a gestão, atualizar os planos e ouvir quem vive a realidade das periferias, do campo, das escolas públicas e do mundo do trabalho.

A juventude não quer favor. Quer direito. Quer oportunidade de estudar, trabalhar, viver com dignidade e participar das decisões que afetam sua própria vida.

Investir em juventude não é gasto. É cuidar do presente e do futuro do Ceará. Se o Estado continuar ignorando a juventude, continuará produzindo desigualdade, exclusão e descrença na política.

Política de juventude não pode ser só discurso. Precisa ser ação, compromisso e prioridade. 

Por Dias Filho – Coluna A Voz Jovem do Ceará