A juventude cercada: quando o crime governa e o Estado se cala
A ausência do Estado no Ceará tem permitido que facções dominem territórios e disputem o futuro da juventude por meio do medo e da violência.
No Ceará, a barbárie deixou de ser exceção e passou a ser regra. Onde o poder público demorou, o crime organizado chegou primeiro, e chegou armado. Hoje, bairros inteiros vivem sob o domínio de facções que impõem regras, expulsam famílias e transformam o medo em instrumento de governo.
Dados da Polícia Civil do Ceará apontam que, entre 2024 e 2025, 219 famílias foram expulsas de suas casas por ordens criminosas. Em Fortaleza, as ocorrências se espalharam por 49 bairros. Não são números frios. São histórias interrompidas, lares destruídos e infâncias marcadas pela violência.
Em distritos como Uiraponga, em Morada Nova, a guerra entre facções esvaziou comunidades inteiras, criando verdadeiras cidades-fantasma. Em Pacatuba, famílias fugiram às pressas após ameaças diretas, deixando para trás casas, móveis e raízes.
No centro desse cenário está a juventude.
Jovens que crescem cercados pelo medo, impedidos de circular livremente, de frequentar a escola com segurança, de sonhar com um futuro fora da lógica do crime. Em muitos bairros, ir à aula virou ato de coragem.
Facções não recrutam por ideologia. Recrutam pela ausência.
Ausência de escola de qualidade.
Ausência de emprego.
Ausência de políticas públicas.
Quando o Estado falha, o crime oferece pertencimento, ainda que esse “pertencimento” custe a vida.
O problema já ultrapassou o campo da segurança pública e entrou no debate nacional. No Senado, expulsões promovidas por facções no Ceará foram classificadas como atos de terrorismo, por violarem direitos fundamentais como moradia e liberdade.
Não estamos diante de uma crise passageira. Estamos diante de um colapso social.
Cada território dominado é uma derrota do poder público.
Cada jovem perdido para o crime é um futuro que não volta.
A pergunta que precisa ecoar é direta:
Quem está disputando a juventude do Ceará?
Porque hoje, em muitos territórios, o crime governa onde o Estado se cala.
Por Dias Filho
Coluna A Voz Jovem do Ceará