Colunista Dias Filho

CORRUPÇÃO TRAVESTIDA DE POLÍTICA PÚBLICA

Relatório do TCU revela pagamento de R$ 19 milhões a pessoas falecidas, evidenciando falhas graves na gestão de recursos públicos.

Publicado em 26/03/2026 21:09
Por Redação Escotilha
Em Opinião
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Não é erro. Não é falha pontual. Não é “ajuste de sistema”.

É dinheiro público escorrendo pelo ralo — mais uma vez.

O escândalo envolvendo o programa “Pé-de-Meia” expõe, de forma brutal, aquilo que muitos já denunciam há anos: no Brasil, políticas públicas têm sido usadas como cortina de fumaça para incompetência, descontrole e, em alguns casos, algo ainda mais grave.

O Tribunal de Contas da União (TCU) identificou um cenário alarmante: milhares de pagamentos realizados a pessoas já falecidas. E não estamos falando de trocados. Já são R$ 19 milhões em benefícios destinados a quem não está mais vivo. Dinheiro que saiu do bolso do trabalhador para simplesmente desaparecer em um sistema falho — ou convenientemente falho.

A pergunta que precisa ser feita não é se houve erro.

A pergunta é: como isso foi possível?

Em plena era da tecnologia, com bancos de dados integrados, CPF digital, cruzamento de informações em tempo real — o Estado brasileiro ainda “não consegue” saber quem está vivo ou morto? Isso não é atraso. Isso não é limitação. Isso é, no mínimo, negligência grave. No máximo, um ambiente perfeito para fraude.

E enquanto isso acontece, milhões de brasileiros honestos pagam impostos abusivos, enfrentam serviços precários e ainda assistem, indignados, ao dinheiro público sendo tratado com descaso.

O mais revoltante é o padrão que se repete.

Sempre o mesmo roteiro:

•Surge a denúncia

•Descobre-se o rombo

•O governo fala em “ajustes”

•Ninguém é responsabilizado

E tudo segue normalmente

Até o próximo escândalo.

Programas sociais são necessários, sim. Mas precisam ser levados a sério. Quando mal geridos, deixam de ser instrumentos de justiça social e passam a ser ferramentas de desperdício — ou pior, de corrupção institucionalizada.

Porque é disso que se trata: quando o sistema permite que milhões sejam pagos a mortos sem qualquer barreira, não estamos diante de um simples erro administrativo. Estamos diante de um modelo permissivo, frouxo e vulnerável, onde o dinheiro público não é tratado com o mínimo de respeito.

E quem paga essa conta?

O cidadão.

Não existe política pública eficaz sem controle rígido. Não existe justiça social sem responsabilidade fiscal. E não existe país sério onde escândalos como esse sejam tratados com naturalidade.

O Brasil precisa parar de normalizar o absurdo.

Porque quando milhões são desviados — seja por incompetência ou por má-fé — o resultado é o mesmo: escolas sem estrutura, hospitais sucateados e uma população cada vez mais desacreditada.

•Chega de maquiagem.

•Chega de narrativa.

•Chega de tratar escândalo como detalhe técnico.

Isso tem nome.

E o Brasil precisa começar a chamar pelo nome certo.

Dias Filho

Colunista - A Voz Jovem do Ceará