CORRUPÇÃO TRAVESTIDA DE POLÍTICA PÚBLICA
Relatório do TCU revela pagamento de R$ 19 milhões a pessoas falecidas, evidenciando falhas graves na gestão de recursos públicos.
Não é erro. Não é falha pontual. Não é “ajuste de sistema”.
É dinheiro público escorrendo pelo ralo — mais uma vez.
O escândalo envolvendo o programa “Pé-de-Meia” expõe, de forma brutal, aquilo que muitos já denunciam há anos: no Brasil, políticas públicas têm sido usadas como cortina de fumaça para incompetência, descontrole e, em alguns casos, algo ainda mais grave.
O Tribunal de Contas da União (TCU) identificou um cenário alarmante: milhares de pagamentos realizados a pessoas já falecidas. E não estamos falando de trocados. Já são R$ 19 milhões em benefícios destinados a quem não está mais vivo. Dinheiro que saiu do bolso do trabalhador para simplesmente desaparecer em um sistema falho — ou convenientemente falho.
A pergunta que precisa ser feita não é se houve erro.
A pergunta é: como isso foi possível?
Em plena era da tecnologia, com bancos de dados integrados, CPF digital, cruzamento de informações em tempo real — o Estado brasileiro ainda “não consegue” saber quem está vivo ou morto? Isso não é atraso. Isso não é limitação. Isso é, no mínimo, negligência grave. No máximo, um ambiente perfeito para fraude.
E enquanto isso acontece, milhões de brasileiros honestos pagam impostos abusivos, enfrentam serviços precários e ainda assistem, indignados, ao dinheiro público sendo tratado com descaso.
O mais revoltante é o padrão que se repete.
Sempre o mesmo roteiro:
•Surge a denúncia
•Descobre-se o rombo
•O governo fala em “ajustes”
•Ninguém é responsabilizado
E tudo segue normalmente
Até o próximo escândalo.
Programas sociais são necessários, sim. Mas precisam ser levados a sério. Quando mal geridos, deixam de ser instrumentos de justiça social e passam a ser ferramentas de desperdício — ou pior, de corrupção institucionalizada.
Porque é disso que se trata: quando o sistema permite que milhões sejam pagos a mortos sem qualquer barreira, não estamos diante de um simples erro administrativo. Estamos diante de um modelo permissivo, frouxo e vulnerável, onde o dinheiro público não é tratado com o mínimo de respeito.
E quem paga essa conta?
O cidadão.
Não existe política pública eficaz sem controle rígido. Não existe justiça social sem responsabilidade fiscal. E não existe país sério onde escândalos como esse sejam tratados com naturalidade.
O Brasil precisa parar de normalizar o absurdo.
Porque quando milhões são desviados — seja por incompetência ou por má-fé — o resultado é o mesmo: escolas sem estrutura, hospitais sucateados e uma população cada vez mais desacreditada.
•Chega de maquiagem.
•Chega de narrativa.
•Chega de tratar escândalo como detalhe técnico.
Isso tem nome.
E o Brasil precisa começar a chamar pelo nome certo.
Dias Filho
Colunista - A Voz Jovem do Ceará