Viçosa do Ceará: quando a caneta do poder público vira arma contra o meio ambiente
Redução de mais de 70% do Parque Morro do Céu gera críticas e investigação ambiental em Viçosa do Ceará.
O que a Prefeitura de Viçosa do Ceará fez não foi gestão. Foi um ataque. Um ataque direto, frio e calculado contra o Parque Municipal Morro do Céu, e contra tudo o que ele representa: preservação, responsabilidade e compromisso com o futuro. Vamos chamar as coisas pelo nome: reduzir um parque ambiental em mais de 70% não é ajuste técnico. É desmonte. Não há maquiagem jurídica que esconda isso.
Criado para proteger a já castigada Mata Atlântica, o parque foi simplesmente mutilado. Cortaram, reduziram, redesenharam. E no lugar da proteção integral, surge um discurso conveniente: turismo, desenvolvimento, “gestão eficiente”. A pergunta é inevitável e incômoda: eficiente para quem?
Porque para o meio ambiente, claramente não é. Nos bastidores, o que se desenha é ainda mais grave. Uma indenização milionária bate à porta do município. O caixa aperta. E a solução encontrada? Não é responsabilidade fiscal, não é planejamento, não é diálogo institucional. É mais simples. Apaga-se o problema, eliminando a proteção. Se o parque gera custo, reduz o parque. Se a lei incomoda, muda a lei. Esse tipo de lógica não é gestão pública. É oportunismo institucionalizado. E abre um precedente devastador.
Hoje é o Morro do Céu. Amanhã pode ser qualquer área protegida em qualquer cidade do Brasil. Basta surgir uma dívida, um interesse ou uma pressão política. E pronto: a natureza vira moeda de troca. O Ministério Público do Estado do Ceará já entrou em cena, investigando o caso e levantando a suspeita óbvia: violação do princípio do não retrocesso ambiental. Traduzindo: o poder público não pode simplesmente desfazer uma proteção já consolidada como se fosse um detalhe burocrático. Mas foi exatamente isso que aconteceu.
E o mais revoltante é a tentativa de normalizar o absurdo. De vender a ideia de que reduzir proteção ambiental é modernizar a gestão. De transformar retrocesso em estratégia. Não é. É perigoso, é irresponsável e pode ser irreversível.
A criação de um “polo turístico” soa como cortina de fumaça. Um rótulo bonito para encobrir uma decisão que, no fundo, atende a interesses que não são os da coletividade. Porque preservar nunca foi fácil. Nunca foi barato. Nunca foi conveniente. Mas sempre foi necessário. Quando um governo escolhe o caminho mais fácil, e sacrifica o que deveria proteger, ele deixa de ser parte da solução e passa a ser o problema.
Viçosa do Ceará está diante de um marco. Não de progresso, mas de regressão. Um momento em que a história vai registrar quem teve coragem de defender o patrimônio natural… e quem preferiu passar a caneta por cima dele.
Em meio a esse cenário de retrocesso, é preciso reconhecer quem teve coragem de se posicionar na contramão da conveniência. Fica aqui o registro e o respeito aos vereadores que votaram em defesa do Parque Municipal Morro do Céu, especialmente ao Daniel Lima, que demonstrou que ainda há quem compreenda o verdadeiro papel de um representante público.
Defender o meio ambiente, muitas vezes, não dá voto fácil, não gera aplauso imediato e não atende interesses poderosos. Mas é exatamente isso que diferencia um mandato comprometido com o futuro de um mandato refém das circunstâncias.
Enquanto alguns optaram pelo caminho mais simples, o da flexibilização e do recuo, outros escolheram o lado mais difícil: o da responsabilidade. E é essa escolha que será lembrada. Porque, quando o silêncio se torna conveniente, posicionar-se vira um ato de coragem.
Porque no fim das contas, a verdade é simples e brutal: não foi o parque que encolheu. Foi o compromisso com o futuro que desapareceu.
Dias Filho
Colunista - A Voz Jovem do Ceará