Asfalto de papel A4: é o serviço de (des)qualidade que o governo do Estado entrega
Cratera em rodovia recente expõe falhas na infraestrutura e levanta questionamentos sobre negligência e segurança pública no Ceará.
A negligência na qualidade de infraestrutura ceifa vidas cearenses
Mais uma tragédia anunciada. Mais uma vida perdida. E, como sempre, o roteiro se repete: o problema só vira prioridade depois que alguém morre.
Na CE-025, em Aquiraz, uma cratera se abriu de forma brutal após as chuvas — engolindo veículos, destruindo sonhos e tirando a vida de um cearense. Não foi um acidente isolado. Foi o resultado direto de uma cadeia de negligência, descaso e maquiagem institucional.
O mais revoltante? O trecho havia sido entregue há poucos anos. Uma obra recente. Um investimento milionário. Vendido como avanço, como desenvolvimento, como solução. Hoje, exposto como símbolo de fragilidade, improviso e, possivelmente, incompetência.
Que tipo de infraestrutura é essa que não resiste a um período de chuvas? Que engenharia é essa que colapsa de dentro pra fora? Que fiscalização é essa que só aparece depois da tragédia?
A verdade é dura: o Ceará está sendo servido com obras de aparência, não de estrutura. Um “asfalto de papel A4” — bonito na propaganda, frágil na realidade. E quando a base é fraca, o resultado é inevitável. A água infiltra, corrói, leva tudo embora. E junto, leva vidas. Não foi apenas o solo que cedeu — foi o compromisso com a segurança da população.
Não se trata apenas de um buraco na pista. Trata-se de um buraco na responsabilidade pública. Enquanto o cidadão paga impostos, confia e transita por essas vias, o mínimo esperado é segurança. O mínimo. Mas nem isso está sendo garantido.
E agora, o que vemos?
Notas oficiais. Promessas de investigação. Prazos técnicos. O mesmo protocolo frio de sempre. Nenhuma resposta imediata para a dor de quem perdeu um familiar. Nenhuma responsabilização concreta à vista. A pergunta que fica é simples — e incômoda: quantas crateras ainda precisam se abrir até que a gestão entenda que infraestrutura não é palco de marketing, mas questão de vida ou morte?
O Ceará não precisa de mais inaugurações. Precisa de obras que durem. Não precisa de discurso. Precisa de responsabilidade. Porque quando o asfalto não sustenta, quem paga o preço é o povo. E, dessa vez, pagou com a própria vida.
Dias Filho
Colunista - A Voz Jovem do Ceará