Colunista Dias Filho

Pé-de-Meia ou moeda eleitoral? Quando a juventude vira alvo, não prioridade

Artigo questiona se o programa Pé-de-Meia é apenas uma política educacional ou também uma estratégia de fortalecimento político junto aos jovens eleitores.

Publicado em 24/06/2026 18:57
Por Redação Escotilha
Em Opinião
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O governo vende como política educacional. Mas quem olha com atenção percebe: o programa Pé-de-Meia não é só sobre educação, é também sobre poder.

A proposta parece nobre: incentivar jovens a permanecerem no ensino médio com um auxílio financeiro. Em um país onde a evasão escolar é alta, especialmente nessa fase, a medida soa quase incontestável. E é exatamente aí que mora o problema: o que parece óbvio demais quase nunca é inocente.

Por que o benefício não alcança o Fundamental II? Por que não investir antes, na base, onde o abandono começa a se desenhar? Por que concentrar recursos justamente na faixa etária que coincide com a formação da nova massa eleitoral?

A resposta oficial fala em combater a evasão no ensino médio. Correto — é onde ela explode. Mas essa explicação, embora técnica, é conveniente. Porque também é no ensino médio que estão os jovens mais próximos do primeiro voto, mais suscetíveis à influência e mais sensíveis a políticas de transferência direta.

Não se trata de negar a importância do incentivo. O problema não é ajudar — é como, quando e para quem se escolhe ajudar. Programas sociais não são neutros. Eles moldam comportamento, percepção e, inevitavelmente, capital político. Em ano pré-eleitoral, isso ganha ainda mais peso. Não é coincidência. É estratégia.

A seletividade do Pé-de-Meia levanta uma questão incômoda: estamos formando cidadãos ou cultivando dependência política? Estamos combatendo a evasão ou construindo lealdade eleitoral?

Enquanto isso, milhões de jovens no Fundamental II seguem fora do radar — sem incentivo, sem prioridade, sem o mesmo “cuidado” do Estado. Coincidência? Difícil acreditar.

No fim, a mensagem que fica é dura, mas necessária: para quem governa, parte da juventude não é vista como futuro — é vista como potencial eleitoral. E quando política pública começa a mirar voto antes de mirar solução, o risco é claro: o cidadão vira instrumento, e a educação vira meio.

O Brasil precisa de políticas que libertem, não que condicionem. Que formem pensamento crítico, não dependência silenciosa. Porque juventude não é massa de manobra. E educação não pode ser moeda de troca.

Por Dias Filho 

Colunista A Voz Jovem do Ceará