Caso Bebê Reborn: modismo ou transtorno legítimo? Uma análise crítica da sociedade em 2025
Qual o objetivo disso? Nenhum que não seja o de chamar atenção e movimentar capital emocional e financeiro
Como psicólogo clínico com longa atuação em saúde mental, é inevitável que eu me manifeste diante de fenômenos sociais que, de tempos em tempos, ganham espaço na mídia e nas redes sociais. Um desses é o chamado caso Bebê Reborn, situação em que adultos, muitas vezes casais, tratam bonecos hiper-realistas como filhos legítimos, chegando ao ponto de reivindicar direitos legais, espaço no sistema judiciário e até atendimento no SUS para esses objetos.
O primeiro ponto que destaco é que transtornos psíquicos sempre existiram. A diferença é que, no passado, foram tratados com ignorância, medo e desprezo. Pessoas com sofrimento mental eram trancadas, amarradas, silenciadas e privadas de dignidade. O avanço da ciência psicológica e psiquiátrica nos permitiu compreender, respeitar e cuidar dessas pessoas, restaurando-lhes parte da humanidade que lhes foi negada. No entanto, em pleno 2025, vivemos um paradoxo.
Ao mesmo tempo em que buscamos inclusão e acolhimento, vemos uma banalização do sofrimento humano sendo promovida por indivíduos que, muitas vezes, não sofrem de transtornos reais, mas se apropriam da estética da loucura para gerar engajamento digital. São pessoas que querem holofotes, likes e seguidores e não tratamento, escuta ou ajuda profissional.
A saúde mental virou palco. E isso é preocupante. A realidade é que há uma diferença clara entre transtorno psíquico e modismo social. E o uso de bonecos Reborn por adultos, quando desprovido de um histórico clínico, contexto de luto ou justificativa terapêutica, não pode ser automaticamente classificado como patologia. É, em muitos casos, um espetáculo montado para as redes, apoiado por influenciadores, artistas e até religiosos que compram esses bonecos e os tratam como filhos.
Qual o objetivo disso? Nenhum que não seja o de chamar atenção e movimentar capital emocional e financeiro. Mais grave ainda é quando tais performances tomam o lugar de questões legítimas. Quando uma boneca de silicone começa a ocupar tempo do sistema judiciário ou recursos do sistema público de saúde, há um evidente deslocamento do foco: tiramos a atenção de crianças reais, mães reais, famílias reais em sofrimento, para oferecer palco a um simulacro de maternidade. Isso não é evolução é retrocesso disfarçado de inclusão.
A humanidade em 2025 parece ter se perdido em alguns pontos. Imaginávamos carros voando, avanços científicos e sociais mais robustos. Em vez disso, vemos manchetes onde um casal luta na justiça pela guarda de uma boneca, enquanto milhares de crianças reais aguardam por uma vaga em abrigos ou por uma decisão judicial para saírem de situações de violência. Como psicólogo, não invalido a dor de ninguém. Mas reforço: nem toda forma de atenção é legítima, nem toda forma de sofrimento é autêntica. Precisamos ter discernimento. Precisamos cuidar da saúde mental, mas também precisamos proteger a seriedade daquilo que é clínico, real, e não transformar cada expressão de carência afetiva em um show.
Por Paulo Costa