Crônica – DAQUI A SEIS MESES

Ao fim do dia, por volta das 23h34 minutos, Isaura, mãe de primeira viagem, confabula com o marido sobre a chegada do filho: o nosso bebê vai nascer na próxima semana, mas já estou pensando em como será daqui a seis meses. 

—Nossa! Como assim daqui a seis meses? Falou o marido, Emergildo, pai da criança que já tinha nome: Edevaldo. 

— Sim, daqui a seis meses volto a trabalhar e não terei tempo de cuidar da criança. A sua mãe já falou que não sabe cuidar de neto e a minha não abre mão das viagens, dos passeios com as amigas e das compras no shopping. A jovem família, que aguardava o primeiro filho, passava por um misto de sentimentos que envolvia alegria e o contentamento pela realização de um sonho e a união do casal, mas, ao mesmo tempo que envolvia a angústia e a preocupação sobre quem cuidaria da criança após o período da licença maternidade. 

— Creche! Exclamou Isaura ofegante, enquanto esquentava a água do café. 

— Mas você sempre teve ojeriza a qualquer possibilidade de matricular o nosso filho em creche, que a propósito, mais parece 

um depósito de crianças. O que te fez mudar de ideia? Pontuou o marido sem entender. 

De fato, Isaura sempre criticou a obrigatoriedade da escolarização e que tipo de profissional iria cuidar do seu filho e passar os primeiros momentos da infância ao lado do seu bebê. Passava horas a fio imaginando como seria o dia na creche, qual tipo de alimentação seria ofertada, se a higiene seria adequada, entre tantas outras questões. Além disso, havia os inúmeros casos noticiados na televisão que era preferível nem relembrar. 

— Mas em nosso caso, será uma exceção, infelizmente, terei que rever a minha opinião, lamentou Isaura. Entre o casal, ficou acertado que, tão logo a criança nascesse, procurariam uma instituição que fosse apropriada para dar os melhores cuidados ao mais novo integrante da família.  E então, numa linda manhã de domingo, nasceu Edevaldo. Coincidentemente, na mesma hora do badalar do sino da igreja matriz. Um momento ímpar que ficou gravado na memória da mãe, uma mulher muito temente a Deus. Edevaldo, veio ao mundo esbanjando saúde e chamando a atenção dos visitantes pelo seu tamanho; 54 cm. Ao saírem da maternidade, os pais, muito emocionados, trocaram carinho pelo olhar e foram para casa repletos de amor para acalentar o primogênito. Após o primeiro mamar, Edevaldo adormeceu no seu lindo berço todo ornamentado e milimetricamente decorado. Isaura, aos poucos, acostumava-se com a nova rotina de mãe: momentos de dor e amor. O pai, ao fim do dia, exausto após um longo dia de trabalho, buscava forças para dar atenção à esposa e ao filho querido. 

— Estou cansada, mas feliz. Repetia Isaura, com um leve sorriso no rosto. 

Logo após o primeiro mês de vida do bebê, os pais, ansiosos, iniciaram a busca incansável por uma creche que atendesse a todos os critérios estabelecidos por uma especialista em educação. Mas no final da história, o que pesou mesmo foi o preço da mensalidade, o horário de atendimento e a proximidade do escritório de advocacia onde Isaura prestava serviços. 

Eufórica com a matrícula, Isaura vibrava: Estou contando os minutos para o início das aulas e ter a chance de viver a minha vida novamente. No primeiro dia de aula, Isaura chegou atrasada e comunicou em tom assertivo que infelizmente iria buscar a criança um pouco depois do horário. Edevaldo, um bebê de seis meses completos há uma semana, olhou para a sua professora com um largo sorriso.

Por: Rafaela Sinésio – Espectadora do Anfêmero e apreciadora de café adocicado.
Revisão: Professor Emanuel Lessa

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